Início > Reflexões > Parem de culpar os pobres

Parem de culpar os pobres

O texto abaixo foi escrito por George Monbiot, renomado colunista do jornal britânico The Guardian, em 28 de setembro de 2009, e traduzido por Mateus Rigo Noriller. Sua versão original pode ser encontrada aqui.

Parem de culpar os pobres: são os manés de iate que estão queimando o planeta.

Crescimento populacional não é um problema – ele está entre aqueles que menos consomem. Então por que ninguém está culpando os ricaços?

Não é nenhuma coincidência que a maioria das pessoas obcecadas pelo crescimento populacional são os endinheirados homens brancos: esta é, afinal, a única questão ambiental pela qual eles não podem ser culpados.

O brilhante cientista de sistemas terrestres James Lovelock, por exemplo, declarou mês passado que “aqueles que não percebem que crescimento populacional e mudanças climáticas são dois lados da mesma moeda são muito ignorantes ou estão se escondendo da verdade. Estes dois grandes problemas ambientais são inseparáveis, e discutir um ignorando o outro é irracional.” Porém, é Lovelock que está sendo ignorante e irracional.

Um estudo publicado ontem no jornal “Meio-ambiente e Urbanização” mostra que os lugares onde a população tem crescido mais rapidamente são aqueles nos quais as taxas dióxido de carbono têm crescido mais vagarosamente, e vice-versa. Entre 1980 e 2005, por exemplo, a África subsaariana foi responsável por 18,5% do crescimento populacional mundial, mas por apenas 2,4% do aumento em gás carbônico. A América do Norte, porém, contribuiu com apenas 4% na quantidade de pessoas, mas com 14% na quantidade de emissões. Sessenta e três por cento do crescimento populacional mundial aconteceu em lugares com emissões bastante baixas.

Mas isto não é tudo. O estudo aponta que aproximadamente um sexto da população mundial é tão pobre que gera emissões insignificantes. Este é também o grupo cuja taxa de crescimento é, provavelmente, a maior de todas. Famílias na Índia que recebem menos de 3000 rupias indianas (R$114,00) por mês gastam um quinto da energia elétrica e um sétimo do combustível para transporte por pessoa do que uma família que ganha 30 mil rupias ou mais. Mendigos não gastam praticamente nada. Aqueles que ganham a vida com o processamento de lixo (uma grande parcela das classes baixas urbanas) geralmente poupam mais gases do efeito estufa do que produzem.

Muitas das emissões pelas quais países pobres são culpados deveriam, por justa causa, pertencer às nações desenvolvidas. A queima de gases por parte de companhias exportadoras de petróleo da Nigéria, por exemplo, tem produzido mais gases do efeito estufa do que todas as outras na África subsaariana emitem juntas. Até mesmo o desmatamento em países pobres é ocasionado, principalmente, por operações comerciais que fornecem madeira, carne e ração animal a consumidores ricos. Os pobres de áreas rurais causam muito menos danos.

O autor do estudo, David Satterthwaite, aponta que a velha fórmula ensinada aos alunos de desenvolvimento – de que o impacto total é igual a população vezes afluência vezes tecnologia (I = PAT) – está errada.  O impacto total deveria ser mensurado como I = CAT (consumidores vezes afluência vezes tecnologia). Muitas pessoas, no mundo, consomem tão pouco que eles sequer apareceriam nesta equação. E estas pessoas são aquelas que têm o maior número de filhos.

Enquanto que existe uma fraca correlação entre aquecimento global e crescimento populacional, há uma correlação bastante forte entre aquecimento global e riqueza. Estive dando uma olhada em alguns super iates, pois irei precisar de algum lugar para divertir Ministros do Trabalho no estilo ao qual eles estão acostumados. Em um primeiro momento, pensei em um Royal Falcon Fleet’s RFF135, mas quando descobri que ele queimava apenas 750 litros de combustível por hora eu percebi que ele não iria impressionar Lorde Maldelson. Talvez eu cause alvoroço em Brighton com o Overmarine Mangusta 105, que bebe 850 litros por hora. Mas a jangada que realmente me encantou é fabricada pela Iates Wally em Mônaco. O WallyPower 118 (que faz os grandes idiotas se sentirem poderosos) consome 3400 litros de combustível por hora quando numa velocidade de 60 nós.  Isto é praticamente um litro por segundo. Ou ainda, isto equivale a 31 litros por quilômetro.

E é claro, pra deixar todos boquiabertos eu terei de desembolsar ainda acabamentos em teca e mogno, carregar alguns jet-skis e um mini submarino, levar os meus convidados até a marina de helicóptero e avião particulares, oferecer a eles sushi de atum-rabilho e caviar Beluga, e pilotar a fera tão rapidamente que irei massacrar metade da vida marinha que habita o mar mediterrâneo. Como proprietário de um destes iates eu causarei mais danos à biosfera em 10 minutos do que muitos africanos causam durante a vida toda. Agora as coisas estão começando a ficar quentes, meu querido!

Alguém que eu conheço que convive com os ricaços me diz que na região dos banqueiros na baixada do Vale Thames há pessoas que aquecem suas piscinas à temperatura de banho quente, durante todo o ano. Eles gostam de se banhar nas noites de inverno, observando as estrelas no céu. O combustível para tal lhes custa £3000 (R$8730) por mês. Cem mil pessoas vivendo como estes banqueiros iriam quebrar os nossos sistemas de suporte à vida mais rapidamente do que 10 bilhões de pessoas vivendo como os camponeses Africanos. Mas, pelo menos, os magnatas têm boas maneiras para não se reproduzir em excesso, então os velhacos ricos que insistem na idéia da reprodução humana os deixam em paz.

Em maio o jornal Sunday Times publicou um artigo intitulado “Clube dos bilionários tentam acabar com a super população”. O artigo revelou que “alguns dos bilionários americanos mais influentes se encontraram secretamente” para decidir qual causa nobre eles iriam apoiar. “Emergiu um consenso de que eles iriam dar suporte a uma estratégia na qual o crescimento populacional seria tratado como uma potencial ameaça ambiental, social e industrial”. Os endinheirados, em outras palavras, decidiram que são os próprios pobres que estão destruindo o planeta. Busca-se uma metáfora, mas é impossível satirizar.

James Lovelock, assim como o Senhor David Attenborough e Jonathan Porritt, é um patrono da Optimum Population Trust. Esta é uma de uma dúzia de campanhas e caridades cujo único propósito é desencorajar as pessoas a se reproduzir, em nome da salvação da biosfera. No entanto, eu ainda não encontrei nenhuma campanha cujo propósito seja questionar os impactos causados pelos bem abonados.

Os obcecados poderiam argumentar que o povo que se reproduz rapidamente, hoje, pode um dia se tornar rico. Porém, à medida que os super ricos se agarram a porções cada vez maiores e os recursos começam a se tornar escassos, este é, para a maioria dos pobres, um futuro cada vez mais distante e improvável. Existem ótimas razões sociais para ajudar as pessoas a controlar a reprodução, mas fraquíssimas razões ambientais – exceto em meio às populações mais abastadas.

A Optimum Population Trust evita falar sobre o fato de que o mundo está passando por uma transição demográfica: as taxas de crescimento populacional estão decaindo em quase todos os lugares e o número de pessoas deve, de acordo com estudos da Nature, atingir o seu ápice neste século, provavelmente por volta de 10 bilhões. A maior parte deste crescimento irá acontecer em meio a aqueles que quase nada consomem.

Entretanto, ninguém prevê uma transição neste consumo. As pessoas têm menos filhos na medida em que se tornam mais ricas, mas elas não consomem menos – pelo contrário, consomem ainda mais. Como os próprios hábitos dos ricos demonstram, não há limites para a extravagância humana. Pode-se esperar que o consumo aumente com o crescimento econômico até que a biosfera chegue ao seu limite. Qualquer um que entenda isto e ainda assim considere que o crescimento populacional, e não o consumo, seja o grande problema, está, nas palavras de Lovelock, “escondendo-se da verdade”. Este é o pior tipo de paternalismo, culpar os pobres pelos excessos dos ricos.

Então, onde estão os movimentos protestando contra os endinheirados que estão destruindo nossos ecossistemas? Onde está a ação direta contra os super iates e os jet-skis particulares? Onde estão os Conflitos de Classes quando mais precisamos deles?

Está na hora de tomarmos coragem para dar nome ao problema. Não é sexo; é dinheiro. Não são os pobres; são os ricos.

CategoriasReflexões
  1. gringo louco
    outubro 23, 2009 às 9:32 pm | #1

    Obvio q os ricos precisam rationalizar (existe essa palavra?) as vidas luxas deles.. e culpar aos pobres e extremamente ironico.

    mas, eu acho importante ver ao longo tempo. Apesar de ser pobre, ter 4,5,6+ filhos leva muitos recursos naturais.. e gas carbonico e so uma medida disso. Todos os filhos dos probres vao ter filhos tambem.. e quem sabe algums deles vao ficar ricos- o sono de todo pai neh? Emfim.. usa camisinha e por favor, religoes, para de impedir safe sex!

  2. outubro 24, 2009 às 7:47 pm | #2

    Gringo Louco, bem-vindo ao Politicomia!

    Concordo contigo. Com toda certeza é o consumo descontrolado dos ricos que causa a maior parcela do aquecimento global. Porém, isto não significa que a super população não seja um problema. Em outras palavras, oque o autor disse foi que não haverá problemas com o aumento da população desde que eles permaneçam miseráveis! E isto, como tu disseste, ninguém quer…

    E o que dizer das classes médias de países em desenvolvimento, como o Brasil, que têm bastantes filhos e que consomem consideravelmente?

  3. outubro 27, 2009 às 2:43 pm | #3

    Isso lembra Thomas Maltus e suas teorias da oferta/demanda…chegaremos a um ponto em que teremos mais bocas à alimentar do que produção continualmente sustentável. E para que a demanada seja atentida, outras fontes de recursos serão explorados, criando alternativas cada vez mais produtiva (e porque não ‘sujas’) de satisfazer o mercado em si.

    O tal do rico, com certeza, tem suas regalias desnecessárias capaz de causar um certo desequilibrio na natureza, ao mesmo tempo, alternativas que poderiam desfazer essas fresquisses impondo uma postura bem mais socialmente ecológica.

    Os pobres, como eu, vivem das adaptações com seu meio afim de sobreviverem através do que lhes são fornecidos, se é o certo ou não, não queremos saber, apenas usamos o que podemos pra consumir e simplesmente sobrevivemos aos poucos. Pobre não tem escolha…

    Anda na Africa com uma caixa de suco de limão ADES, com embalagem TetraPark (muito contestada por conta da sua reutilização inapropriada), e uma garrafa de água mineral extraída de uma fonte natural no interior de Goiás. Qual que o africano, considerando suas alternativas, irá optar? Eu tomaria um suquinho…custou ao meio ambiente a fabricação daquela caixa, do suco manufaturado e, no caso, a demolição de uma área verde por conta da plantação de soja, que seria o igrediente principal do ADES, mas fala isso pra um morto da fome/sede!

    Enfim, eu aposto num mundo mais sustentável, com a iniciativa privada apostando em energia renovável e o estado ‘educando’ seu povo com questões demográficas. A projeção é um cenário cada vez mais ‘velho’, com mais idosos e menos crianças nascendo. Chegaremos ao ponto de pagar a maternidade da mulher para a proliferação humana ascender novamente…não teremos mais mão de obra! Países ricos fazem isso, né? Putz, sempre os ricos…

  4. outubro 29, 2009 às 12:27 am | #4

    Então eu posso concluir que o problema não está no tamanho da população que habita este planeta, e sim na qualidade de vida desta população!

    Pobres comem pouco, poluem pouco e consomem pouco de uma maneira geral. Porém, eles produzem bastante! Este é o caso da crise de alimentos na China (e em outros locais também) gerada pelo êxodo rural: os camponeses deixaram de produzir alimentos no campo e foram para os grandes centros urbanos.

  5. outubro 29, 2009 às 12:28 am | #5

    Está aí uma falácia econômica: se a pobreza consome pouco e por isso polui pouco, ser pobre é bom!

  1. Nenhum trackbacks ainda.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.